Tuiuti abre a última noite de desfiles exaltando a travessia iorubá
Por Flavia Cirino - 17/02/2026 - 15:30

A Paraíso do Tuiuti será a primeira escola a pisar na Avenida nesta terça-feira, 17 de fevereiro, dando início a uma das noites mais aguardadas do Carnaval carioca. O “esquenta” está previsto para 21h45, enquanto o desfile deve começar às 22h, com um enredo que promete emoção, ancestralidade e força histórica.
Com o título “Lonã Ifá Lukumi”, a escola leva para o Sambódromo uma narrativa que atravessa continentes. A proposta acompanha o caminho da tradição iorubá, que saiu da África e encontrou em Cuba um novo território de sobrevivência cultural, mesmo em meio à violência da escravidão.
Ifá, orixás e a memória que atravessou o Atlântico
Na África, os iorubás preservavam seus saberes por meio do Ifá, um oráculo que orienta destinos e ensina o equilíbrio da vida. Esse conhecimento não dependia de livros. Ao contrário, vivia na palavra, no gesto e na memória, transmitido pelos babalaôs, responsáveis por interpretar sinais e manter viva a ligação com os orixás.
Entretanto, a história mudou de forma brutal quando homens e mulheres iorubás foram arrancados de suas terras e levados à força para o outro lado do Atlântico. Em Cuba, passaram a ser chamados de lucumis e enfrentaram trabalho compulsório nas plantações de cana-de-açúcar e café.
Mesmo assim, a fé seguiu como companhia inseparável. Nas senzalas e nos engenhos, os lucumis reconstruíram sua religião em silêncio, preservaram rituais e ensinaram aos mais jovens os caminhos do Ifá, como forma de resistência cotidiana.
Carlota Lucumí e a resistência que virou símbolo em Cuba
Em Matanzas, essa herança ganhou força e se transformou em luta. Foi ali que Carlota Lucumí liderou uma grande revolta contra a escravidão, tornando-se símbolo de coragem do povo iorubá em solo cubano.
Além disso, Matanzas também marcou a consolidação do Ifá nas Américas. Remígio Herrera, conhecido como Adechina, nasceu escravizado, porém se tornou figura central na preservação dessa tradição. Após conquistar a liberdade, voltou à África para se consagrar babalaô. E retornou a Cuba com a missão de organizar o culto de Ifá de forma estruturada.
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Para sobreviver à perseguição colonial, os lucumis associaram seus orixás a santos católicos. Assim surgiu a Santería, também chamada de Regla de Ocha ou Regla Lucumi, um disfarce necessário para manter a fé viva.
Dessa travessia forçada, nasceu uma nova casa para a tradição iorubá. Agora, a Paraíso do Tuiuti leva essa história de dor, permanência e reinvenção para a Avenida, abrindo a noite com um enredo que conecta passado e presente.
É jornalista formada pela Universidade Gama Filho e pós-graduada em Jornalismo Cultural e Assessoria de Imprensa pela Estácio de Sá. Ela é nosso braço firme no Rio de Janeiro e integra a equipe de OFuxico desde 2003. @flaviacirino




















