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22/02/2021 | 16h05m - Publicado por: Ará Rocha | Foto: Claudia Martini

Eduardo Martini ultrapassa o limite da interpretação em Simplesmente Clô

Ator traz a história nua e crua do saudoso estilista ao palco

Eduardo Martini ultrapassa o limite da interpretação em Simplesmente Clô - Claudia Martini

O terceiro sinal toca, abrem-se as cortinas. O arrepio na pele permanece do começo ao fim. Numa interpretação impecável e extraordinária, Eduardo Martini , na minha humilde opinião, um dos atores mais completos e radiantes do mundo do teatro, envolve a plateia com a fala, os trejeitos, maneiras e manias de Clodovil Hernandes na peça Simplesmente Clo, em cartaz no teatro União Cultural, em São Paulo.

O local, aliás, é coordenado por Eduardo Martini, que com todo cuidado, reabriu as portas do local para receber o público com total cuidado, obedecendo todas as exigências da Organização Mundial da Saúde para impedir a circulação do novo coronavírus.

Com o texto de Bruno Cavalcanti, jornalista e autor, e direção de Viviane Alfano, que também é uma atriz e cantora espetacular, Simplesmente Clô prende a atenção do público, num misto de encanto, riso e admiração a este estilista, cantor, pintor, apresentador, enfim, um homem multifacetado, que adorava as mulheres e, por consequência, amava costurar roupas belíssimas para que as mesmas pudessem se sobressair com elegância.

No palco, o espetáculo traz três vestidos originais, desenhados pelo estilista.

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OFuxico conferiu o espetáculo neste final de semana e entrevistou Eduardo Martini, Viviane Alfano e Bruno Cavalcanti, que contaram um pouco mais desse trabalho lindo. Confira!

Eduardo Martini revela como surgiu a ideia de levar a vida de Clodovil aos palcos.

“Eu tinha muita vontade de fazer essa peça e de fazer essa homenagem pra o Clodovil, com Luiz Carlos Góis. Mas ele faleceu também e não deu tempo da gente fazer. Surgiu o texto maravilhoso do Bruno Cavalcanti e estamos aí, no palco, mostrando um pouco do Clo.”

A peça não é sobre o personagem Clodovil, mas sim, sobre o ser humano Clodovil.

“Estou fazendo um inventário da vida dele. Um inventario o que é? A pessoa fez isso, fez aquilo, sem julgar, sem defender, sem atacar, sem nada. Mostramos ele nu e cru, a vida dele, do jeito dele; a história dele da maneira que mais sinto, que eu mais vejo. Eu entendi que era uma pessoa que foi rejeitada por mãe biológica e por mãe adotiva. Clodovil foi um ser humano complexo, que tinha altos e baixos na vida. Inteligentérrimo, chiquérrimo, um cara que era multi: desenhava, pintava, cantava, fazia teatro, fazia televisão, apresentava programa de TV, enfim, um cara que tinha uma vida muito rica.”

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Martini ressalta o sentimento de solidão vivido por Clodovil.

“E a mesmo tempo, com todos esses talentos, ele não tinha ninguém, vivia sem nenhum acompanhamento, sem nenhuma historia de alguém pra dar uma orientação. Se ele tivesse um pouco mais de cabeça aberta e tivesse ido a uma terapia, alguém que ajudasse ele a entender essa multiplicidade dele, porque tinha vários homens dentro de um só, acho que ele teria se dado muito bem. Aliás, teria se dado melhor, porque ele sempre foi uma pessoa importante.”

Atuar interpretanto Clodovil Hernandes tem trazido um lado espiritual mais aflorado para Eduardo Martini.

“Espiritualmente pra mim é uma coisa louca, porque aprendo a cada dia a não julgar as pessoas. Primeiro porque a gente não deve julgar nada e, segundo, porque a gente não sabe o que acontece ao redor das pessoas, o que elas realmente vivem e sentem.”

O trabalho de caracterização e o “produto” final

“Tomei um susto na verdade com a proximidade da foto que minha irmã, a fotógrafa Claudia Martini fez. Da caracterização que é muito simples, mas que se aproximou tanto do Clodovil. Temos tudo muito simples: a maquiagem, a boca, o estilo do óculos que ele usava e os jeitos, as histórias da vida dele. A gente se assustou bastante ao ver o resultado.”

Sobre a diretora, Viviane Alfano, que há anos mantem uma amizade enorme com Martini, onde, inclusive, ele é padrinho de batismo da netinha da atriz, ele se declara:

“Conheço a Vivi há muitos anos. Ela tem uma percepção impressionante, uma lógica na direção que me deixou muito feliz. Ela tem pulso firme pra discernir as coisas, onde colocar as piadas, as músicas, quais músicas colocar, todas as marcações. O espetáculo é muito simples mas muito difícil de fazer. Talvez um dos mais difíceis que fiz até hoje. Porque não estou fazendo um personagem, mas sim, fazendo um ser humano que todo mundo conhece, todo mundo viu;que muitos amam ou odeiam. E ele existiu, então não dá pra você inventar. A Viviane nesta condução, teve um papel primordial, maravilhoso.”

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Bruno Cavalcanti acertou em cheio na delicadeza do texto, na percepção de quem era Clodovil Hernandes.

“Bruno Cavalcante acertou num texto apartidário, porque ele não julgou o Clodovil, nem atacou. Em nenhum momento não tem nada que a gente pudesse abonar ou desabonar na conduta que ele teve nas coisas. Ele faz um mea culpa e isso é muito propicio para os dias de hoje”, falou Martini.

Sobre o autor

Formado pelo Centro Universitário FIAM FAAM, Bruno já colaborou para publicações como Folha de São Paulo, Observatório do Teatro, entre outras. É dele a peça (e o livro) Papo com o Diabo e os livros Crônicas de um Jovem Jornalista e  Porque a Gente é Assim – Música Popular e Comportamento.

O autor conversou com OFuxico e falou sobre escrever sobre um homem tão marcante.

“Olha, é uma história bem interessante. Eu vinha de uma série de pesquisas sobre personalidades nada óbvias da nossa cultura, então eu tinha escrito um texto chamado Pequeno Manual Prático para a Vida Feliz, sobre a Danuza Leão, e o Clodovil me veio no meio dessas pesquisas. Fiquei surpreso quando vi que ninguém tinha feito nada sobre ele. Uma noite depois de uma peça fui jantar com o Eduardo (Martini) e comentei a minha vontade de escrever esse texto e ele ficou louco, porque era um desejo antigo dele interpretar o Clodovil logo após sua morte. O Luiz Carlos Góes, que foi um grande dramaturgo, faria o texto, mas não teve tempo, ele morreu em 2014. E aí esse desejo do Eduardo ficou em suspenso e eu nem sabia disso quando propus (risos).”

Nasceu então a peça e o livro Simplesmente Clô.

“Aí foi correr para o abraço. Peguei muitas entrevistas dele, eu mesmo entrevistei amigos, parceiros e companheiros de trabalho para montar o texto que é um inventário. Ele não está ali pra se defender de nada, nem nós o acusamos. Apenas mostramos a figura por trás do mito, sabe?"

"As pessoas achavam que seria uma comédia escrachada porque o Clodovil tinha essa personagem debochada, desbocada e tal, mas ele era um homem muito sério, muito triste e solitário E é isso, essa figura por trás do mito, que interessou a todos nós. E o Eduardo faz brilhantemente, a direção da Vivi é de arrebentar”, concluiu.

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A diretora Viviane Alfano

Viviane Alfano já dividiu o palco com Eduardo Martini em grandes sucessos, entre eles, A Chorus Line, produzido por Walter Clark em 1983 e que lançou ainda Claudia Raia. Alfano estrelou, em 2018, um presente criado por AMrtini: A Era do Rádio, onde viveu uma Elenice, uma ouvinte de rádio que interagia com os locutores e soltava a voz, brilhantemente, em canções que deixavam a plateia suspirando.

Atriz e diretora, Alfano conversou com OFuxico, contando como  foi dirigir Simplesmente Clô.

“Pra começar, dirigir um ator com muito talento já é  meio caminho andado. Clodovil foi muito estudado. Pesquisei muito o poder de sedução  no qual envolvia sua plateia com seu humor inteligente, sobre o tipo de música  que gostava. A trilha que escolhi é refinada como ele, enfim, foi um trabalho árduo mas muito prazeroso. Não caracterizei Clodovil, dei personalidade e muita sutileza de um homem que, como outro qualquer, sofre com a solidão. O texto na verdade é um inventário da vida dele, muito bem colocado por Bruno Cavalcanti. Simplesmente Clô  foi pincelado e costurado com muito amor. Agradeço muito por essa oportunidade e confiança que o Edu me presenteou.”

Serviço

Simplesmente Clô
Reestreou: 12 de janeiro
Horários: sábados 21h e domingos 19h
Indicação Etária: 12 anos
Local: Teatro União Cultural - R. Teixeira da Silva, 560 - Paraíso, São Paulo
Fone para informações e ingressos: (11) 2148-2900

Ficha Técnica
Elenco: Eduardo Martini
Texto: Bruno Cavalcanti
Direção: Viviane Alfano
Concepção de luz e figurinos: Eduardo Martini
Produção: Martini Produções
Foto: Cláudia Martini







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