Preso após 600 denúncias: Quem é Fernando Sampaio, da Outsider?
Por Flavia Cirino - 12/01/2026 - 08:51

Alvo de uma extensa lista de ações judiciais e registros de ocorrência espalhados pelo país, Fernando Sampaio de Souza e Silva, de 36 anos, acabou preso no último dia 6 de janeiro pela Polícia Civil de Santa Catarina.
A prisão ocorreu em um prédio de alto padrão em Balneário Camboriú, no litoral catarinense, e chamou atenção pelo contraste entre o cenário de luxo e o volume de acusações que se acumulam contra o empresário.
O mandado de prisão preventiva partiu da Justiça do Pará e tem como base investigações por estelionato ligadas à venda de pacotes de viagens que, segundo clientes e autoridades, não foram entregues conforme o contrato. Em muitos casos, aliás, os serviços sequer saíram do papel, o que levou consumidores a prejuízos financeiros expressivos e a uma sucessão de disputas judiciais.
Com atuação no setor turístico há anos, Fernando construiu sua imagem pública principalmente no Rio de Janeiro, onde se apresentou como fundador e proprietário da Outsider Tours. A empresa ganhou espaço ao oferecer pacotes voltados ao turismo esportivo, com foco em grandes eventos nacionais e internacionais, como finais de campeonatos de futebol, Olimpíadas e competições de alto apelo midiático. A promessa de experiências exclusivas, somada a preços considerados competitivos, atraiu clientes de diferentes perfis e regiões.
Do crescimento acelerado ao primeiro grande colapso
Apesar da expansão rápida, os sinais de alerta surgiram antes mesmo de a marca alcançar projeção nacional. Processos apontam que, já em 2019, contratos apresentaram falhas graves. Um dos casos envolve um casamento realizado na Tailândia, cuja organização logística ficou sob responsabilidade da Outsider. De acordo com a ação, problemas na emissão de passagens aéreas e vouchers de hospedagem afetaram noivos e convidados, gerando tensão e prejuízos em um evento planejado para ser simbólico.
Após golpe, Nego Di é condenado a mais 11 anos por estelionato
Ainda assim, o episódio que colocou definitivamente a empresa no centro das atenções ocorreu em 2022. À época, a Outsider anunciou o fretamento de aviões para levar torcedores do Flamengo à final da Copa Libertadores, em Guayaquil, no Equador. Muitos clientes pagaram integralmente pelos pacotes, mas não conseguiram embarcar. O cenário resultou em voos cancelados, confusão em aeroportos do Rio de Janeiro e uma onda de reclamações que rapidamente ganhou repercussão nacional.
A partir desse momento, as denúncias passaram a se multiplicar. Levantamentos judiciais indicam registros de ocorrência e processos em ao menos 21 estados brasileiros, além do Distrito Federal. Em novembro, o número já ultrapassava 600 ações envolvendo Fernando Sampaio ou empresas ligadas a ele. Em 2025, a Polícia Civil do Rio de Janeiro indiciou o empresário duas vezes pelo crime de estelionato, reforçando o cerco judicial.
Investigações conduzidas por delegacias e varas cíveis apontam um padrão de atuação que se repetiria ao longo dos anos. Entre os pontos citados em documentos e decisões judiciais estão a oferta de pacotes com valores abaixo do mercado, a entrega parcial de serviços como estratégia para afastar acusações criminais e dificuldades recorrentes para localizar bens que garantissem ressarcimento aos consumidores após sentenças favoráveis.
Suspensão da venda de produtos
Há também indícios de uso de CNPJs de outras empresas, algumas em nome de pessoas próximas, para continuar recebendo pagamentos. Segundo investigadores, essa dinâmica teria dificultado a responsabilização patrimonial direta de Fernando, já que empresas em operação no Rio e em São Paulo não constariam formalmente em seu nome.
Além disso, órgãos de defesa do consumidor passaram a agir. Em estados como o Rio de Janeiro, o Procon determinou a suspensão da venda de produtos da Outsider após sucessivas queixas de descumprimento contratual. Mesmo assim, novas negociações continuaram a surgir, alimentando o volume de disputas judiciais.
Processos milionários
Entre as ações em andamento, algumas chamam atenção pelos valores envolvidos. Na Bahia e em São Paulo, processos pedem indenizações que superam a casa do milhão de reais. Em 2023, uma empresa paulista do setor de viagens entrou com uma ação de R$ 1,2 milhão contra a Outsider e a High Light Consolidadora, outra empresa comandada por Fernando.
O processo relata uma contratação para a final da Champions League de 2023, em Istambul, na Turquia. Após o pagamento integral dos pacotes, os vouchers de viagem não teriam sido entregues, obrigando a empresa contratante a arcar sozinha com o prejuízo para não comprometer seus clientes.
Em parceria anterior, relacionada à Copa do Mundo do Catar, o mesmo processo aponta a apresentação de um comprovante de pagamento internacional falso, o que teria deixado todo o grupo sem hospedagem e forçado gastos extras com deslocamento. Fernando nega irregularidades e afirma que a questão terminou em acordo posterior.
Em São Paulo, a delegacia de Araçatuba registrou dificuldades para localizar o empresário a fim de realizar citações processuais. Diante disso, uma carta precatória seguiu para o Rio de Janeiro com o objetivo de viabilizar interrogatório e indiciamento. Fernando sustenta que mudou de endereço quatro vezes nos últimos anos e que essa circunstância teria dificultado o contato. Segundo ele, a atual sede da Outsider funciona na Barra da Tijuca.
Uma empresa de turismo de Salvador moveu ação inicialmente avaliada em R$ 3,6 milhões. Alegava descumprimento de um acordo que previa pagamento parcelado, com entrada de R$ 250 mil e outras 11 parcelas mensais de R$ 305 mil. Após dois meses sem pagamento, dessa forma, o valor cobrado subiu para R$ 5,9 milhões.
Acusações de celebridade
O nome de Fernando também aparece em um registro de ocorrência feito pelo ator Márcio Garcia. Segundo o boletim, o artista firmou parceria comercial para divulgar a marca Outsider em redes sociais. Em troca, um pacote com hospedagem, passagens e ingressos para jogos. O ator relata ter pago R$ 17,2 mil pelo pacote, além de negociar um upgrade de R$ 3,9 mil para classe executiva.
Receba as notícias de OFuxico no seu celular!
O pagamento ocorreu via PIX para a Arena Consultoria Esportiva, empresa aberta em março deste ano em nome da ex-namorada de Fernando. Ela afirma não reconhecer a transação. No dia da viagem, no balcão da companhia aérea, Márcio Garcia e a família descobriram que não existia qualquer passagem emitida, o que o levou a comprar novos bilhetes com recursos próprios.
O caso tramita na 16ª DP e segue sob investigação. Questionado, Fernando nega as acusações e afirma que o ator não cumpriu a parte do acordo referente à divulgação da marca.
A prisão em Santa Catarina representa, portanto, um novo capítulo em uma trajetória marcada por crescimento rápido, promessas ambiciosas e uma sequência de conflitos judiciais que se espalharam pelo país, mantendo o nome de Fernando Sampaio no centro de uma das maiores controvérsias recentes do setor de turismo esportivo brasileiro.
É jornalista formada pela Universidade Gama Filho e pós-graduada em Jornalismo Cultural e Assessoria de Imprensa pela Estácio de Sá. Ela é nosso braço firme no Rio de Janeiro e integra a equipe de OFuxico desde 2003. @flaviacirino

























