Werner Schünemann diz que ainda se sente um “aprendiz”

Por - 02/02/13 às 19:33

Luiza Dantas/ Carta Z Notícias

O brilho nos olhos e o discurso emocionado definem muito bem o prazer de Werner Schünemann em atuar. Sem afetação ou deslumbres, apesar dos 34 anos de experiência no cinema e no teatro, o intérprete do ingênuo Assunção, de Lado a Lado, assume suas fraquezas e dificuldades diante da tevê, veículo no qual estreou há exatos 10 anos, na pele de Bento Gonçalves, em A Casa das Sete Mulheres.

"É meio bobo. Mas ainda fico nervoso para entrar em cena. Apesar da idade e de tudo que já produzi, me sinto um aprendiz. Entro no estúdio, observo meus colegas de trabalho e tento me tranquilizar para poder dar o melhor de mim", conta.

Natural de Porto Alegre, Werner passou boa parte de sua carreira limitado à frutífera cena artística do Sul do país. Até que sua íntima relação com a Guerra dos Farrapos, retratada em A Casa das Sete Mulheres, o fez desenvolver seu lado televisivo.

"Achei muito bacana estrear na tevê contando uma história da minha terra", emociona-se.

A partir da minissérie, Werner começou a ser um nome frequente na escalação de autores e diretores da Globo. Tanto que, em 10 anos, acumula participações em cerca de quatro séries e nove novelas, entre elas, Eterna Magia, de 2007, e Passione, de 2010.

"Não sou muito de planejar as coisas. É por isso que, ao repassar a última década, fico surpreso com a quantidade de coisas legais que pude desenvolver e com o aumento do número de pessoas que puderam ver o meu trabalho", valoriza.

Entre atos

Próximo do fim de Lado a Lado, Werner Schünemann já começa a arquitetar seus planos para depois da novela. Entre os projetos, está um road movie, do qual ele ainda prefere fazer mistério sobre os detalhes, mas entrega parte da sinopse da produção.

"Infelizmente, em se tratando de cinema, fica difícil adiantar qualquer coisa. É tudo muito demorado. Mas posso dizer que é um filme de estrada, que começa no interior do Rio Grande do Sul e termina em Paris", explica.

Além de voltar aos sets, Werner assume que sente muitas saudades de fazer teatro e acredita que não há lugar mais revigorante para o ator do que os palcos. No momento, já começa a ter ideias e convites para espetáculos e também lê alguns textos.

"Para mim, fazer teatro é como se fosse férias remuneradas", ressalta, aos risos.
 
Cabeça feita

Cheio de humor, Werner Scühnemann consegue traçar um divertido paralelo entre seu personagem na atual novela das seis e o torpe Saulo, de Passione.

"Ambos são cornos e têm o chifre como parte importante de seus dramas", analisa.

No entanto, para o ator, as traições sofridas por seus personagens têm diferentes motivações. No caso de Saulo, as puladas de cerca de Stela, de Maitê Proença, eram por pura carência sentimental e sexual. Enquanto que Constância, personagem de Patrícia Pillar, carrega algumas doses de nobreza no par de chifres que coloca em Assunção.

"A maioria das aventuras de Constância são políticas. É sempre em troca de algo bom para ela ou para vida do marido", diverte-se.

O Fuxico: Ao longo de sua carreira, você dedicou-se, notadamente, à produção de cinema e teatro no Rio Grande do Sul. O que o reconhecimento da televisão agregou à sua trajetória?

Werner Schünemann: A televisão me fez ficar conhecido nacionalmente. Isso encheu minha carreira de possibilidades. Mas engraçado, ser ator não é apenas acontecer e conquistar um espaço na mídia. Nossa profissão também é um pouco meditar e estudar. É necessário 'não estar acontecendo' e se preparar para o que está por vir. Ninguém está sempre tão atento para ficar apenas no lugar de destaque. Descobri a televisão no tempo certo, aos 42 anos. Sem estrelismo, ego ou pressa. Simplesmente aconteceu e venho me adaptando ao veículo gradativamente.

OF: Ainda sente muitas dificuldades de atuação na hora de gravar?

WS: Vai além disso. Minha dificuldade é mais ao analisar o trabalho como um todo. Entre cinema, teatro e tevê, a televisão é o mais difícil para mim, pois existe a preocupação de fazer o melhor possível dentro do esquema industrial da teledramaturgia. O que exige um grau de concentração e de trabalho fora do comum. Nos palcos e nos longas, as condições para o trabalho do ator são mais favoráveis.

OF: Por quê?

WS: O teatro é do ator. E o cinema tem um tempo lento, uma preparação, onde sou quase dono do ritmo que a cena vai ter. Na tevê, a gente tem um volume muito grande de coisas para fazer, o que me estimula bastante. Mas é uma paixão ambígua. Pois, ao mesmo tempo, minha autocrítica faz com que eu me desespere um pouco (risos).

OF: Você é do tipo que sofre quando assiste a suas cenas?

WS: Sempre (risos). Toda vez que me assisto, começo a suar. Por isso, acho melhor quando não tem ninguém ao meu lado. Analisando mais friamente, acho que a autocrítica, às vezes, é só um refúgio.

OF: Como assim?

WS: É uma alternativa de proteção do ator. Eu tenho medo de gostar do que fiz. Vai que apenas eu estou achando bom… Acaba sendo um refgio covarde. É muito mais fácil você dizer para si mesmo "estava uma merda!" do que analisar pela qualidade e pelo que você desenvolveu de forma coerente na cena. Resumindo: é uma sensação bem estranha (risos).

OF: Desde que você estreou na Globo, seus personagens têm sempre um certo destaque na trama. É essa responsabilidade que o assusta?

WS: Com certeza. É claro que me sinto feliz por ter papéis que estão sempre no meio do grupo de protagonistas. Dentro da Globo, tenho sentido esse prestígio, essa reserva do meu nome para projetos bacanas. Isso me dá muito prazer, pois sinto uma confiança. Então, não dá para fazer isso de qualquer jeito. É até uma comparação complicada, mas pelo público de massa, fazer televisão requer mais seriedade e compromisso do que teatro. Você está sendo visto por milhões. No teatro, se eu fizer alguma besteira até ilegal ou imoral, dá para ir na casa de todo mundo e pedir desculpas. Mas com milhões isso toma outra proporção.

OF: Geralmente, você é escalado para papéis de fortes tintas dramáticas, como o Saulo, de Passione (2010). Voltar ao ar em Lado a Lado com um personagem mais leve foi uma escolha sua?

WS: Eu realmente queria fazer algo diferente. O Saulo me custou um pouco de saúde (risos). Foi muito difícil. Eu levava muito o personagem para casa. A Fernanda (Montenegro) me dizia: "Você tem de entrar no mar, fazer um descarrego com sal grosso!". E eu não tinha energia para fazer nada. Saía do estúdio, à noite, totalmente estafado. O Assunção ser mais leve já tira a impressão deixada pelo Saulo no público.

OF: De alguma forma, você teme ficar conhecido apenas por trabalhos densos?

WS: Não tenho esse problema. Querendo ou não, os personagens que tenho feito na Globo são fortes, com uma energia muito para fora. Meu personagem em Lado a Lado é um dos mais simpáticos. Não é que ele não tenha energia e não seja forte. Mas, na comparação com os outros, ele se torna realmente mais tranquilo (risos). É bom voltar mais leve. Até porque, pessoalmente, eu gosto muito de fazer comédia.

OF:  Como contratado da Globo, até que ponto você tem autonomia para aceitar ou recusar um personagem?

WS: Eu tenho uma relação muito legal com a emissora. Há 20 anos, eu não poderia imaginar que conseguiria ter uma ligação profissional tão bacana com uma empresa. Quando rola um personagem que não me motiva, eu negocio. Estou à disposição, mas tem de ser algo instigante. Às vezes, tem uma novela que eu quero fazer e também não tem personagens para o meu perfil. Paciência, né? Mas nunca disse: "Não quero!". Sempre sentei e conversei sobre os prós e contras de certos compromissos.

OF: Produções de época, como JK e Eterna Magia, além de A Casa das Sete Mulheres, são recorrentes em sua carreira. O que o atrai para este tipo de projeto?

WS: A possibilidade de criar a partir de referências históricas e a produção sempre impecável destinada a esse produtos dentro da emissora. No caso de Lado a Lado, historicamente, trata-se de um momento muito interessante do Rio de Janeiro, uma época trágica, dramática, mas de grande desenvolvimento, e que nunca havia sido abordada. Vidas foram destruídas e prejudicadas na modernização da cidade. Neste contexto, o Assunção faz o trabalho do Oswaldo Cruz na época.

OF: A novela está a quase dois meses do final. Qual balanço você faz desse trabalho?

WS: Fazer o Assunção é um grande aprendizado. Nessa novela, temos um grupo de atores que, se fosse uma competição de esgrima, os espadachins são de primeira e as lutas são sempre justas e legais. Todo mundo se cruza e é embate de talentos a todo momento. Vou levar essa experiência comigo. Fora isso, a trama tem um contexto histórico fabuloso. É o tipo de trabalho que dá o maior orgulho de fazer.

Trajetória Televisiva

# "A Casa das Sete Mulheres" (Globo, 2003) – Bento Gonçalves.

# "Kubanacan" (Globo, 2003) – Alejandro.

# "Começar de Novo" (Globo, 2004) – Anselmo.

# "Senhora do Destino" (Globo, 2004) – Saraiva.

# "América" (Globo, 2005) – Pedro Paulo.

# "JK" (Globo, 2006) – Bernardo Sayão.

# "Dom" (Globo, 2006) – Augusto.

# "Amazônia, de Galvez a Chico Mendes" (Globo, 2007) – Rodrigo.

# "Eterna Magia" (Globo, 2007) – Max.

# "Duas Caras" (Globo, 2008) – Humberto.

# "Beleza Pura" (Globo, 2008) -Tomás.

# "Passione" (Globo, 2010) – Saulo.

# "As Brasileiras", (Globo, 2001) – Alberto.

# "Lado a Lado" (Globo, 2012) – Assunção.

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