Cenários de ‘A Nobreza do Amor’ revelam reinos africanos e cidade brasileira

Por - 16/03/2026 - 12:18

Cenografia de 'A Nobreza do Amor"Foto Estevam Avellar

A construção visual de “A Nobreza do Amor” nasce de um amplo trabalho de pesquisa histórica, cultural e estética que guiou todos os departamentos da produção. Desde o início, a equipe decidiu mergulhar em referências ligadas a diferentes países africanos para desenvolver a identidade artística da novela. Dessa forma, o projeto buscou apresentar um retrato mais amplo e complexo do continente, distante de representações simplificadas que ainda aparecem em muitas obras audiovisuais.

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Para sustentar essa proposta, a produção contou com a consultoria do pesquisador Maurício Camillo, natural da Guiné-Bissau e especialista na história de antigos reinos africanos. Ao lado dele, o diretor de arte Rafael Cabeça, estudioso da cultura afro-brasileira, ajudou a transformar esse repertório em elementos visuais presentes na cenografia e nos cenários da trama.

“O povo da África ficou reduzido aos estereótipos de pobreza e doença, de savana ou até de atrasado, perpetuado enquanto pobre e associado ao crime e à corrupção. É esse retrato que aparece nos filmes e algumas novelas. ‘A Nobreza do Amor’ traça outro caminho, trazendo outras formas de viver existentes na África em suas múltiplas culturas, que também podem ser mostradas”, afirma Maurício.

Cenografia de 'A Nobreza do Amor"
Foto Estevam Avellar

Dois mundos cenográficos erguidos nos Estúdios Globo

Com base nesse conceito, a produção ergueu dois grandes universos narrativos dentro dos Estúdios Globo. De um lado surge Batanga, o reino africano que conduz parte central da história. Do outro, aparece Barro Preto, cidade fictícia brasileira que abriga diversos personagens ao longo da trama.

Os dois espaços ocupam uma área superior a 4.500 metros quadrados. A cenografia de Batanga ficou sob responsabilidade da cenógrafa Paula Salles, enquanto o cenógrafo Fábio Rangel assinou o projeto de Barro Preto. No total, cerca de 300 profissionais participaram do processo de construção.

Durante mais de três meses, equipes trabalharam na montagem das estruturas. O reino africano ocupa cerca de 974 metros quadrados. Já a cidade brasileira alcança aproximadamente 3.532 metros quadrados.

Além das estruturas internas, a produção também buscou locações externas capazes de ampliar a sensação de realismo. As gravações começaram no Rio Grande do Norte em dezembro de 2025. A escolha das paisagens ocorreu devido à semelhança geográfica com regiões africanas.

Outra locação importante aparece no Rio de Janeiro. A Fortaleza de Santa Cruz da Barra, em Niterói, recebeu a encenação da batalha final da Guerra da Independência liderada pelo Rei Cayman II. Construída a partir de 1555, a fortaleza serviu de referência para a cenografia do reino de Batanga.

Segundo Paula Salles, o cenário erguido nos estúdios funciona como uma espécie de continuidade simbólica desse espaço histórico, representando o momento em que o povo africano retoma o poder.

Cenografia de 'A Nobreza do Amor"
Foto Estevam Avellar

Baobá se torna símbolo central do reino de Batanga

Entre os elementos cenográficos mais marcantes da novela aparece, por exemplo, o baobá, árvore considerada sagrada em diversas culturas africanas. A equipe decidiu colocá-la no centro do reino fictício para reforçar a ligação espiritual entre os personagens e a natureza.

“Estamos muito conectados à ideia de terra sagrada”, comenta Paula.

Na narrativa visual da novela, o baobá atua acima de tudo como símbolo de resistência, memória e ancestralidade. A cenógrafa descreve o elemento como uma espécie de guardião da história.

“Funciona quase como um ancião, um elemento de muito poder, que estabelece uma ligação importantíssima com a história”, define em seguida.

A estrutura cenográfica impressiona pelo tamanho. A árvore possui cerca de três metros de largura e desse modo alcança aproximadamente seis metros e meio de altura. Já a copa reúne quase doze metros de folhagem, o que cria um marco visual dominante no cenário.

Ao redor do baobá, a cenografia incorpora diversos elementos inspirados em tradições africanas. Entre eles aparecem muxarabis — treliças vazadas de origem árabe bastante usadas no norte da África — bem como símbolos adinkra, ideogramas criados pelo povo Akan.

Esses grafismos surgem em portas, janelas, paredes e até em figurinos da realeza de Batanga. Dessa forma, o cenário estabelece uma continuidade estética entre ambiente, cultura e personagens.

Dentro da fortaleza reproduzida nos estúdios também surgem espaços importantes para a trama. Um dos mais emblemáticos é a sala do trono. O ambiente reúne madeira entalhada, bandeiras e pinturas feitas manualmente.

Dois tronos distintos aparecem no cenário. Cada um traz características próprias e referências simbólicas a orixás da tradição iorubá: Iansã representa o trono da rainha, enquanto Xangô inspira o trono do rei.

Barro Preto apresenta cidade parada no tempo

Se Batanga destaca poder e ancestralidade africana, Barro Preto surge como um contraste narrativo e visual. A cidade fictícia localizada no Rio Grande do Norte apresenta uma atmosfera que remete ao passado.

Para construir essa identidade, o cenógrafo Fábio Rangel realizou uma ampla pesquisa em referências arquitetônicas do Norte e do Nordeste do Brasil. O resultado mistura influências de cidades históricas como Cachoeira, na Bahia, e Olinda, em Pernambuco.

Nesse cenário, nada remete à modernidade. As construções mostram marcas de envelhecimento natural e preservam características arquitetônicas que atravessam séculos. A cidade apresenta um estilo eclético, com elementos clássicos e góticos convivendo no mesmo espaço.

A organização urbana segue um modelo tradicional de novelas brasileiras. No centro da cidade aparece uma praça principal que reúne igreja, armazém e residências importantes. O formato homenageia produções clássicas da televisão, como Roque Santeiro e Tieta.

Entre os elementos mais curiosos da cenografia surge o busto da mãe do prefeito Bartô. A produção utilizará computação gráfica para animar a escultura, que reagirá aos acontecimentos mais marcantes da cidade.

Além disso, algumas cenas de Barro Preto utilizam locações externas no Rio de Janeiro. A fazenda do núcleo de Tonho, interpretado por Ronald Sotto, ganhou gravações na Fazenda da Taquara. No local, a equipe montou o Engenho Santa Fé.

Heranças africanas atravessam o cenário brasileiro

Apesar das diferenças visuais entre os dois universos, a cenografia estabelece conexões simbólicas entre Batanga e Barro Preto. Essas ligações aparecem de maneira sutil ao longo da narrativa.

Fábio Rangel organizou a cidade como um mosaico de pequenos ambientes que refletem as origens culturais dos personagens. Assim, núcleos de origem libanesa receberam referências arquitetônicas específicas, enquanto o banqueiro Diógenes, interpretado por Danton Mello, vive em um espaço com inspiração inglesa.

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Além disso, a presença africana também aparece em detalhes espalhados pela cidade. Elementos de serralheria tradicional, grafismos e símbolos como o Sankofa surgem discretamente em fachadas e cenários.

O Sankofa, símbolo associado à cultura Akan, representa a ideia de revisitar o passado para seguir adiante. Na novela, esse conceito reforça a ligação entre os dois territórios e destaca a influência histórica africana na formação cultural brasileira.

Essas referências aparecem, por exemplo, na casa do personagem José, também conhecido como Zambi, interpretado por Bukassa Kabengele. Assim, a cenografia constrói uma ponte visual entre continentes e histórias que se cruzam ao longo da trama.

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É jornalista formada pela Universidade Gama Filho e pós-graduada em Jornalismo Cultural e Assessoria de Imprensa pela Estácio de Sá. Ela é nosso braço firme no Rio de Janeiro e integra a equipe de OFuxico desde 2003. @flaviacirino