Lula e Flávio: Eleição deste domingo põe a democracia brasileira à prova
Por Flavia Cirino - 25/10/2026 - 07:00
Lula e Flávio Bolsonaro: Quem ganha? - Foto: Reprodução/ Xis O Brasil chega a mais um segundo turno presidencial carregando muito mais do que a expectativa de conhecer seu próximo presidente. Neste domingo, 25 de outubro, os eleitores também colocam à prova a própria confiança na política, em suas instituições e na capacidade do voto de abrir caminhos para um país diferente. Em meio à polarização, ao desgaste das lideranças e à insatisfação de parte da população, a escolha nas urnas ganha um significado que ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Há razões para o desencanto. Afinal, a distância entre as promessas eleitorais e a realidade cotidiana alimenta a descrença de quem enfrenta dificuldades para pagar as contas, encontrar oportunidades e confiar em representantes que deveriam defender o interesse coletivo. Além disso, os privilégios que sobrevivem nos corredores do poder contrastam com a vida de milhões de brasileiros que precisam fazer escolhas difíceis para chegar ao fim do mês.
Entretanto, transformar a indignação em desistência significa entregar ainda mais espaço a quem se beneficia da apatia popular. É justamente quando a política decepciona que a sociedade precisa cobrar explicações, fiscalizar decisões e exigir resultados. A democracia não elimina os conflitos nem garante governantes competentes por decreto, mas oferece um instrumento essencial para corrigir rumos sem recorrer à violência: a possibilidade de escolher e substituir representantes pelo voto.
Resultado das urnas não encerra a cobrança
Independentemente de quem conquiste a maioria neste domingo, a vitória eleitoral não deve funcionar como um cheque em branco. O próximo presidente terá de demonstrar, na prática, que compreende a dimensão de sua responsabilidade. Isso significa governar para além dos próprios apoiadores, respeitar as instituições e apresentar respostas concretas aos problemas que afetam a população.
Nesse sentido, o combate aos privilégios precisa deixar de ser apenas um recurso de campanha. O dinheiro arrecadado por meio dos impostos deve atender às necessidades coletivas, e não alimentar mecanismos de influência capazes de favorecer grupos organizados em prejuízo da maioria. Da mesma forma, benefícios fiscais e subsídios econômicos merecem avaliações transparentes, com critérios claros, metas verificáveis e resultados que justifiquem o uso de recursos públicos.
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Ao mesmo tempo, políticas sociais bem planejadas continuam indispensáveis para enfrentar a pobreza e reduzir desigualdades. O desafio, portanto, não está em opor proteção social e responsabilidade fiscal, mas em construir medidas que atendam a quem realmente precisa, ampliem oportunidades e contribuam para a autonomia dos beneficiários.

Oportunidades x privilégios
O país também precisa enfrentar obstáculos que dificultam o crescimento sustentável. Para isso, o governo terá de buscar um ambiente econômico mais previsível, estimular investimentos produtivos e melhorar a infraestrutura. Educação e saúde de qualidade, por sua vez, devem ocupar lugar central nessa agenda, porque nenhuma estratégia de desenvolvimento se sustenta quando milhões de pessoas permanecem sem acesso adequado a serviços essenciais.
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Além disso, uma revisão criteriosa dos gastos públicos e das exceções tributárias pode abrir espaço para um sistema mais justo e eficiente. No entanto, mudanças dessa natureza exigem diálogo, transparência e disposição para enfrentar interesses consolidados. Sem esses compromissos, qualquer discurso de modernização corre o risco de se transformar em mais uma promessa abandonada.
A segurança jurídica também merece atenção. Empresas precisam de regras estáveis para investir, enquanto trabalhadores e consumidores necessitam de proteção contra abusos. Por isso, o desenvolvimento não depende apenas de decisões econômicas: exige instituições confiáveis, contratos respeitados e políticas públicas capazes de produzir benefícios duradouros.
Instituições fortes precisam prestar contas
A responsabilidade pela crise de confiança, contudo, não recai exclusivamente sobre o Executivo. O Congresso Nacional precisa ampliar a transparência de suas decisões, explicar a destinação dos recursos públicos e assegurar debates consistentes antes da aprovação de medidas que afetam toda a sociedade. Acordos políticos fazem parte da democracia, mas não podem servir de justificativa para afastar os cidadãos das decisões que lhes dizem respeito.
O Judiciário e o Ministério Público, por sua vez, precisam preservar a independência e a credibilidade que justificam suas funções. Isso pressupõe rigor ético, transparência e limites claros entre o exercício do cargo público e os interesses privados. Questionamentos sobre condutas, benefícios ou relações impróprias exigem apuração responsável, com respeito ao devido processo legal e sem privilégios incompatíveis com a função pública.
Nesse cenário, a reforma das instituições e da administração pública não pode servir de pretexto para enfraquecer a independência dos Poderes. O caminho democrático exige o contrário: mecanismos de controle, prestação de contas e respeito à Constituição. Afinal, fortalecer as instituições significa torná-las mais confiáveis, e não submetê-las aos interesses de quem ocupa temporariamente o poder.
Democracia precisa voltar a fazer sentido
É compreensível que muitos eleitores cheguem ao fim desta campanha sem entusiasmo. A polarização frequentemente reduz o debate a ataques, rótulos e disputas de poder, enquanto questões fundamentais perdem espaço. Ainda assim, a insatisfação não precisa se converter em indiferença. Ela pode impulsionar uma participação mais exigente, capaz de cobrar coerência, fiscalizar promessas e rejeitar a normalização de privilégios.
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O presidente escolhido neste domingo terá a oportunidade de demonstrar que a política pode oferecer mais do que confrontos intermináveis. Para isso, precisará reconhecer limites, negociar sem abandonar princípios e aceitar que governar exige responsabilidade perante toda a sociedade. Sobretudo, deverá compreender que o mandato pertence ao interesse público, não a um projeto pessoal de poder.
A eleição, portanto, representa um ponto de partida, não a solução automática para os problemas nacionais. A mudança depende de decisões concretas, instituições responsáveis e uma sociedade disposta a acompanhar o que acontece depois da apuração.
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Por mais frustrante que seja o cenário, desistir da democracia não resolve suas falhas. Ao contrário, abre espaço para que elas se aprofundem. O voto deste domingo carrega a expectativa de um novo capítulo, mas a verdadeira transformação começará quando a escolha nas urnas se converter em cobrança permanente, compromisso público e respeito aos brasileiros. É essa capacidade de exigir mudanças, sem abrir mão das regras democráticas, que poderá devolver sentido à política e esperança ao futuro do país.
É jornalista formada pela Universidade Gama Filho e pós-graduada em Jornalismo Cultural e Assessoria de Imprensa pela Estácio de Sá. Ela é nosso braço firme no Rio de Janeiro e integra a equipe de OFuxico desde 2003. @flaviacirino























