Cininha de Paula abre o jogo e fala de assédios sofridos na Globo

Por - 21/06/23 às 08:15

Cininha de PAula gesticula em pocket show no Festival de Cinema de VassourasFoto: Renato Cipriano / Divulgação

Na tarde de terça-feira, 20 de julho, seguiu a programação do quinto dia do “Festival de Cinema de Vassouras”, realizado na cidade fluminense, na região do Vale do Café, no Centro-Sul do estado do Rio de Janeiro. por lá, o público pode acompanhar um Talk Show com a participação da atriz e diretora Cininha de Paula.

Cininha de Paula, de tênis e saia longa, no Festival de Cinema de Vassouras
Foto: Renato Cipriano / Divulgação

Cininha já nasceu nasceu em uma família de artistas: é filha da atriz Lupe Gigliotti (1926 – 2010); mãe da atriz Maria Maya, fruto de seu casamento com o diretor e ator Wolf Maya, sobrinha do humorista Chico Anysio (1931 – 2012) e do cineasta Zelito Viana, prima dos atores Marcos Palmeira, Bruno Mazzeo e Nizo Neto. Mas não foi fácil trilhar a carreira até se consolidar como uma grande diretora.

Fora da Rede Globo desde 2019, onde trabalhou por mais de 30 anos, durante a conversa, Cininha contou detalhes de sua trajetória e relembrou que no início, estava recém casada, quando recebeu uma ligação com a proposta de um contrato de trabalho, que aumentou o brilho dos seus olhos, pois poderia ajudar nas despesas de casa. Foi onde começou a trabalhar como atriz, fez comerciais e estava encantada por ganhar dinheiro fazendo algo “fácil”.

OFÍCIO

Na época, a profissão de ator não era algo regulamentado e, sem ter nenhuma formação de atriz, apenas com conhecimento de tablado que a sua mãe a colocou para ter desenvoltura, aceitou a proposta, pois achava linda a profissão de atriz: uma atividade onde ganhava dinheiro, fazendo algo que ela achava super fácil e divertido para ser considerado um trabalho.

Quase se formando em medicina, ela engravidou e pensou “Agora vou parar de brincar de ser atriz”. Nesse momento, ela pediu para não dar sequência em seu contrato com a Globo e o seu tio, Chico Anysio, não deixou ela sair e a fez permanecer, mesmo grávida, gravando por ali.

CONTRA A PAREDE

Fazendo residência em um hospital, seu chefe lhe chamou de canto e disse: “A doutora deve tomar um rumo em sua vida, pois está no ar pela Rede Globo, e os pacientes lhe reconhecem quando chegam no hospital. E a senhora sempre mente, dizendo que aquela da televisão é a sua irmã gêmea”. Ele ainda recomendou que ela escolhesse qual dos dois empregos seria o melhor em sua opinião, para focar apenas em um e dar um rumo em sua vida, já que ela passava o plantão todo atendendo os pacientes e brincando como atriz.

Cininha de Paula, de tênis e saia longa, no Festival de Cinema de Vassouras
Foto: Renato Cipriano / Divulgação

Cininha foi embora e, ao chegar em casa e contar ao marido que seu chefe havia lhe proposto decidir entre uma carreira e outra, sem pestanejar ele disse que havia casado com uma médica. Foi aí que ela tomou a decisão, se tornou atriz e se separou do marido, mesmo no fundo não querendo ser atriz, pois o que ela gostava, no fundo, era o talento da direção.

“Entreguei o contrato nas mãos do Manoel de Assis e pedi para ser assistente de direção, pois eu não queria ser atriz. E foi onde recebi a resposta de que não havia nenhuma oportunidade naquele momento para assistente de direção. E tinha ainda o fato dela ser mulher, profissão esta que até então sempre foi valorizada apenas por homens”, contou Cininha.

Persistente, ela não desistiu e foi atrás de vários diretores, pedindo uma oportunidade. A resposta que todos davam era que ela tinha que ser atriz, por ser engraçada, e não ser diretora como ela almejava.

“Eu já estava sem contrato com a Globo, mas fui no Daniel Filho (1937 – 2012) e ele quis me ajudar. Falou para eu bater na porta do Jorge Fernando (1055 – 2019) e dizer que ele tinha ordenado que eu fosse integrada à sua equipe. Fui lá, falei com Jorge que me vetou também e ainda disse: ‘Vá lá reclamar com o Daniel, diz que eu não te quero aqui’. E eu não fui”, contou.

MONTANDO UM ESPETÁCULO

Já que o sonho de Cininha de Paula sempre foi dirigir, ela resolveu montar um espetáculo teatral, adaptando um texto infantil de Jorge Amado (1912-2001), transformando em um espetáculo musical. Ali ela começou a chamar a atenção da classe artística.

“A mulher do Jorge Amado, Zélia Gattai (1916-2008), estava viva ainda, assistiu e gostou muito. Fiz um espetáculo lindo, ganhei todos os prêmios. Roberto Talma (1949-2015) viu, adorou e falou: ‘Vem comigo, garota, vou te levar para a TV Globo’. Ele me deu essa oportunidade e foi por ele que me tornei diretora. Meu primeiro trabalho foi como assistente em Mandala (1987). A Vera Fischer e o Felipe Camargo eram os protagonistas. Aqueles dois não eram fáceis”, brincou.

Depois disso, Cininha se tornou assistente dos principais diretores e ali começou sua verdadeira formação, construindo uma carreira fantástica.

“Hoje eu dou aula para crianças, pois também me formei em mestrado e, acredite se quiser, elas nem sabem quem foi o Chico Anysio. Mesmo assim, decidi montar uma peça de teatro com eles da ‘Escolinhazinha do Professor Raimundo’.

ASSÉDIO

Em sua trajetória, Cininha afirma que nunca sofreu nenhum tipo de violência física, por ser muito cascuda e que sua altura (1,56 metro) tinha algo que a salvava: “O fato de ter a fala muito grossa, imponho respeito. Mas enfrentei todos os tipos de assédios enquanto atuava como atriz, seja sexual, moral entre outros. O Roberto Talma e o Daniel Filho foram doces comigo (risos).”

Cininha de Paula no Festival de Cinema de Vassouras
Foto: Renato Cipriano / Divulgação

Cininha seguiu, revelando o sofrimento de ser mulher em uma carreira ainda, na época, vista como profissão parahomens.

“O sofrimento é inenarrável. Se você estivesse de TPM, por exemplo, tristonha ou no período pré-menstrual, teu chefe falava: ‘Eu não te disse pra você encostar a barriga no fogão e fazer uma comida? Lavar uma louça? O que eu tenho a ver com isso? Eu não mandei você estar aqui.”

“Foi muito doloroso ser diretora. Eu achei que quando eu fosse para a direção, o assédio seria menor. Eu fui assediada sexualmente e moralmente quando era atriz. Enfrentei todos os tipos de assédio e achei que fosse diminuir quando me tornasse diretora, mas os assédios sexuais e morais continuaram. Com a idade, foi diminuindo e ficou somente o moral. Mas recebi cantada até quase virar vovó. Uma coisa absurda.”

Cininha finalizou, falando do sentimento de dever cumprido na profissão: “Eu me sinto uma pessoa muito feliz, porque atravessei esse caminho cheio de pedregulho, caí algumas vezes, chorei muito, mas no fundo consegui adquirir algo para levar pra minha vida.”

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