Suzane von Richthofen surge ‘feliz e contente’ ao revisitar crime

Por - 06/04/2026 - 12:03

Suzane Von RichthofenSuzane Von Richthofen - Foto: Reprodução/ Netflix

Mais de duas décadas após o assassinato dos pais, Suzane von Richthofen volta ao centro das atenções ao revisitar a própria história em um documentário inédito. Condenada a 39 anos de prisão pelo crime que chocou o país em 2002, ela cumpre atualmente pena em regime aberto.

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Agora, ao aceitar participar do projeto, decide reconstruir os acontecimentos sob sua perspectiva, o que reacende discussões sobre um dos episódios mais emblemáticos da crônica policial brasileira.

Por enquanto, o longa, com quase duas horas de duração, teve exibição restrita pela Netflix, sem data oficial de estreia. Ainda assim, trechos já circulam nas redes sociais, o que amplia o alcance do conteúdo e intensifica o interesse do público. Nesse cenário, a produção se insere no crescente apelo por narrativas de true crime, embora provoque reações divididas.

Ao longo do filme, Suzane inicia o relato pela infância. Segundo ela, o ambiente familiar, localizado em São Paulo, apresentava distanciamento emocional e exigência constante. “Eu vivia estudando. Era só nota alta. Tirava 9 e 10 em todas as matérias. Não tinha demonstração de amor, nem deles pra gente, nem da gente pra eles. Minha vida era brincar com o meu irmão”, sustentou Suzane.

Suzane Von Richthofen
Suzane diz que não participou ativamente do crime – Foto: Reprodução/ Netflix

Memórias de uma casa marcada por tensão

Ainda no início do depoimento, ela descreve o pai, Manfred von Richthofen, como uma figura distante. “Meu pai era zero afeto. Minha mãe ainda tinha um pouco. Volta e meia ela pegava a gente no colo. Mas era muito de vez em quando”. Assim, constrói uma narrativa de frieza dentro de casa, que, segundo ela, influenciou sua formação emocional.

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Além disso, Suzane afirma que o relacionamento entre os pais era conturbado. “O relacionamento dos meus pais era muito ruim”, disse. Em seguida, relata um episódio de violência doméstica que teria presenciado ainda criança. “Eu era criança. Meus pais botavam a gente pra dormir muito cedo. Ouvi uma discussão e desci pra ver o que era. Eu vi meu pai enforcando a minha mãe contra a parede. Foi horrível”.

Por outro lado, a ausência de diálogo também aparece como ponto recorrente. “Eu nunca conversei sobre sexo com a minha mãe. Nenhuma vez. Zero”, contou. Dessa forma, ela reforça a ideia de isolamento emocional. “Eu e meu irmão fomos ficando invisíveis dentro de casa”, narrou Suzane, ao lembrar da relação com Andreas, com quem afirma ter criado um refúgio particular.

Relação com Daniel e ruptura familiar

Nesse contexto, surge Daniel Cravinhos, apontado como peça central na mudança de sua trajetória. Segundo Suzane, o relacionamento ocupou espaço crescente em sua vida.

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“O Daniel passou a ocupar todos os espaços da minha vida”, afirmou. Ao mesmo tempo, a resistência dos pais aumentava, especialmente por parte da mãe.

“Ela falava que ele ia me puxar para o fundo do poço”, relatou. A partir daí, a jovem passou a manter uma rotina paralela, longe da supervisão familiar. “Eu saía de casa dizendo que ia pro karatê, mas ia pra casa do Daniel”, contou. Assim, descreve um período de descobertas e excessos. “Escondida dos meus pais, conheci todo o litoral de São Paulo. A gente alugava carro e seguia viagem. O Daniel me mostrou o mundo que eu queria viver”.

No entanto, as mentiras vieram à tona, o que intensificou os conflitos. “Virou uma guerra dentro de casa. Qualquer coisa era briga”, disse. Em um dos episódios mais tensos, Suzane afirma ter sido agredida pelo pai. “Ele me deu um tapão na cara tão forte que meu rosto virou pro lado”.

Do conflito à decisão irreversível

O ponto de ruptura, segundo ela, ocorreu durante uma viagem dos pais à Europa. Durante cerca de 30 dias, Suzane teria vivido com Daniel na casa da família. “Foi um mês de liberdade total. Um sonho que eu não queria que acabasse. Era o dia inteiro de sexo, drogas e rock ’n’ roll”, recordou. “Aquele mês mudou tudo na nossa vida”.

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A partir desse período, a ideia do crime teria surgido de forma gradual. “Nós não falávamos em matar meus pais. A gente dizia que seria muito bom se eles não existissem”, afirmou. Dessa forma, a narrativa indica uma construção progressiva da decisão.

Ainda assim, Suzane tenta delimitar sua participação. “Eu não construí a arma do crime. Não tenho nada a ver com isso”, ressaltou. Ao mesmo tempo, admite responsabilidade ao permitir a entrada dos executores. “Eu aceitei. Eu os levei pra dentro da minha casa”. Em seguida, reconhece: “A culpa é minha. Claro que é minha”.

A noite do crime e versões conflitantes

Sobre o momento do assassinato, Suzane sustenta que permaneceu no andar inferior da casa. “Eu fiquei no sofá, com a mão no ouvido para não escutar nada”, contou. Ainda assim, admite consciência do que ocorria. “Eu sabia”. Em outro trecho, descreve o próprio estado emocional: “Eu não estava em mim. Era como um robô, sem sentimento”.

Apesar disso, ela reconhece que poderia ter impedido o desfecho. “Se eu parasse pra pensar, aquilo não aconteceria. (…) Quando tudo terminou, o impacto veio de forma imediata. Não tinha mais como voltar atrás. O que eu fiz não tem mais volta”.

Entretanto, o documentário também apresenta contrapontos. A delegada Cíntia Tucunduva, do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa, relembra que Suzane foi encontrada dias depois em situação considerada incompatível com o luto. Segundo a investigação, ela teria recebido policiais em casa durante uma confraternização.

Vida atual e tentativa de reconstrução

Ao ser confrontada com esse relato, Suzane contesta. “Não tinha a menor condição de fazer uma festa naquela casa. A casa estava com cheiro de sangue”, afirmou. Assim, reforça divergências entre sua versão e a das autoridades.

O documentário, provisoriamente intitulado “Suzane vai falar”, também revela aspectos da vida atual. Ela aparece ao lado do marido, Felipe Zecchini Muniz, e do filho. Além disso, cenas domésticas mostram uma rotina familiar reconstruída ao longo dos anos.

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Nesse contexto, Suzane tenta estabelecer distância entre passado e presente. “Aquela Suzane ficou lá no passado. A sensação que eu tenho é que ela morreu junto com os meus pais”, disse. Ao abordar espiritualidade, associa a maternidade a um novo começo. “Quando eu olho para o meu filho, eu tenho a certeza de que Deus me perdoou”.

Ainda assim, o reconhecimento público permanece constante. “Você entra num lugar e parece que o ar para. Todo mundo olha. ‘Olha, a Suzane’”, relatou. Segundo ela, episódios de exposição ocorrem até em situações cotidianas, o que evidencia que o caso segue vivo na memória coletiva.

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É jornalista formada pela Universidade Gama Filho e pós-graduada em Jornalismo Cultural e Assessoria de Imprensa pela Estácio de Sá. Ela é nosso braço firme no Rio de Janeiro e integra a equipe de OFuxico desde 2003. @flaviacirino