Gilberto Gil sobre ‘Amigos, Sons e Palavras’: ‘Uma forma de resistência’

Por - 18/01/23 às 15:10

gilberto gil cantando e tocando violão no programa amigos, sons e palavrasFoto: Ana Paula Amorim

Nesta segunda-feira, 23 de janeiro, estreará a terceira temporada de “Amigos, Sons e Palavras”, programa comandado por Gilberto Gil no Canal Brasil, que contará com 13 novos episódios, sendo exibidos dois em sequência a partir das 20h45 toda segunda-feira.

E coletiva de imprensa, na qual OFuxico esteve presente, Gilberto Gil comentou sobre a atração que já comanda há alguns anos, e antes dele dar seus apontamentos, André Saddy, diretor geral do Canal Brasil, descreveu a importância do artista na grade da emissora:

 “A primeira frase da Bela, em que ela valoriza que o Gil está tocando só para ela, encontrei o gregório domingo e ele disse a mesma coisa, e a gente do Canal Brasil tem a mesma sensação, de ter um programa de Gilberto Gil só na nossa grade. Ele tem muito a cara dele, estimula a reflexão, trata com calma e profundidade que não estamos acostumados a ver na atualidade, tudo com o jeito Gil, a leveza nas conversas, ao mesmo tempo intensa e apaixonantes”, disse ele.

“É o que buscamos na nossa grade também com nossos filmes, buscar uma reflexão em relação a alguns temas, que ele fique na nossa cabeça e desperte algo em cada um. É um prazer estar aqui, esse ano completamos 45 anos de existência, uma marca e tanto, e é muito bom comemorar com um programa de Gilberto Gil”, concluiu André.

Patrícia Guimarães, uma das diretoras de “Amigos, Sons e Palavras”, garantiu: “Essa temporada é a mais Gil que tem, pois fomos amadurecendo junto com ele, aperfeiçoando o formato. É sempre no tempo dele, da maneira dele, é tudo bastante verdadeiro em todos os sentidos”. Leticia Muhana, a outra diretora, completou: “Um objetivo nossos nessa temporada, além de entender que o programa anda sozinho, era misturar os convidados de diversos cantos, fazer esse abre alas da cultura. Foi um prazer fazê-lo, e vocês verão isso em tela”.

CONSTRUÇÃO COLETIVA

Porém, Gilberto Gil não tem a mesma visão dos profissionais citados: “Quanto a ser uma coisa focada em mim, um pouco é, pois sou eu, meu nome, minha história, trajetória, uma aproximação minha com amigos, colegas e pessoas que admiro, é também um conjunto de coisa. É uma possibilidade dada aos meios contemporâneos de comunicação, essa agilidade possibilitada”.

“Também é uma intervenção de todas essas pessoas que fazem o programa, imaginam as dinâmicas e o modo de fazer. Enxergo que é uma temporada de todos nós, que fomos evoluindo e ampliando com o passar dos anos. Para mim é muito pessoal, há depoimentos para mim emocionantes, mas é algo criado pela equipe e pela possibilidade moderna de comunicação”, afirmou.

“Em relação às conversas, são muitas que já temos esses dias, sobre o que já acontece, e as meninas me ajudaram a ancorar essa realidade. As conversas são modos de estabelecer entre nós lugares profundos, até onde podemos colocar o pé sem afundar, e é o que precisamos para o desenvolvimento dos temas, das dúvidas. É um programa que é meu, mas de todo mundo, em que todos fazem e todos desfrutam”, revelou o cantor

“Adoro a palavra ‘familialidade’, ‘familial’. Uma das coisas modernas das redes é essa coisa de estabelecimento de conexões familiares, uma noção típica de conexão mundial, de trocas de todos os lugares, com esse desejo de expansão para o mundo”.

“É a grande família pós-moderna das comunicações. Tenho uma família grande e isso acaba vindo ao programa e para as conversas, transbordando para a família dos outros, até por ser um assunto emblemático, de construção dos diversos formatos de família, em que buscamos um sentimento de união possível, sendo o que chamo de ‘familialidade’”, opinou Gilberto Gil.

ARTE COMO MEIO DE LIGAÇÃO

O primeiro episódio da temporada contará com Fernanda Montenegro sendo entrevista por Gilberto Gil, e ele só rasgou elogios à colega de Academia Brasileira de Letras: “Fernanda tem isso de representar uma capacidade de captação através do trabalho dela, do olhar dela, da forma como ela vê personagens egressos da própria humanidade, que estão nos roteiros, dramaturgia, nas coisas escritas pelos roteiristas de teatro e do cinema…”

“Ela lida com esses sentimentos e questões da mente humana, que são muito clássicos, trazendo uma coisa muito grande, então a conversa com ela sempre traz aprendizados, é uma coisa muito forte. […] Ela tem uma experiência enorme, já atuou em peças de autores brasileiros e estrangeiros, então uma conversa com Fernanda é recheada dessa ‘seiva’ profunda do florestal enorme que ela representa”, complementou o artista.

Gil ainda citou a arte como caminho para as pessoas se reconectarem em meio a tanta polaridade: “A arte e a cultura permitem juntar linguagens, diferentes formas de expressão, e tudo isso é a possibilidade de liga que as pessoas têm de estarem juntas, formarem seus grupamentos, suas ligações. Nesse momento em que as máquinas fazem as pessoas arriscarem suas individualidades, de estarem ligadas nas possibilidades de linguagens, elas têm a possibilidade de exorcizarem seus males”.

“Pessoas que cantam, dançam, atuam, exercitam linguagem e ares variados, a arte permite essa conexão, as linguagens de modo geral. É isso, a arte é sempre uma grande liga da humanidade, o ‘objeto das conversas’”, avaliou.

CONEXÃO COM OS ENTREVISTADOS

Já que a participação de Fernanda Montenegro foi comentada, Gilberto Gil aproveitou para falar como ele escolhe a canção que abre cada episódio: “O objetivo é que as músicas casem com os entrevistados e os assuntos que serão tratados no programa, é uma forma de conectar aquela pessoa ao meu trabalho, à minha licença poética, elas têm lastro nesse sento, no ‘peso da leveza’ da caracterização do meu moo de estar no mundo, que é o mesmo de todo mundo. As canções são assim”.

“São versões exigidas pela condensação exigida entre eu e o violão diante daquela pessoa na qual a música está sendo cantada, e até mesmo é inspiradora da cantoria daquela versão, então por isso é uma versão nova, intima, determinada por aquele diálogo específico. É um dos pontos fortes do programa, essa renovação de versões das canções, que são mais espontâneas, sem extremos cuidados de arte-finalização, é tudo mais simples, mas uma simplicidade que me agrada muito”, refletiu Gilberto Gil.

Sobre seus convidados, afirmou: “Não os vejo como entrevistados, mas como conversadores. Os critérios foram variados, mas principalmente tem a aproximação coleguística, pois há cantor, músico, comunicador, todos estamos conectados de alguma forma em nossos trabalhos e na arte em nossas vidas”.

TEMAS FLUÍDOS

Gilberto Gil então revelou: “Tem conversas específicas que vinham de temas que eu queria falar sobre, seja música ou até mesmo ciência, em como os avanços tecnológicos afetam as pessoas. Queria falar de muita coisa, desses interesses difusos, da história da humanidade, das ideologias, as guerras, são coisas que aparecem naturalmente nas conversas pois são de interesse de todas as pessoas. As variedades de temas que são propostas são muito vastas pois todos somos vastos”.

“As meninas, o André, os envolvidos no programa, fazem proposições de roteiro, de pautas, que é uma coisa naturalmente necessária, mas muito da conversa se dá ali pelo acaso do momento, não só entre eu e o convidado, mas também por Patricia, que está ali, que interfere no programa, traz associações que não foram feitas, vai repautando o programa durante sua realização, dando opinião até da música que eu abro cantando. Há assuntos fixos trazidos pelos realizadores do programa, mas tudo fica muito fluído ali na conversa em si com o convidado”, contou Gil.

Liniker será a convidada do segundo episódio, e mais uma vez, muitos elogios rasgados: “A Liniker se apresenta como uma herdeira, uma sucessora de vários momentos da música popular brasileira. Ela tem uma relação muito profundidade sobre os compositores no qual ela se aprofundou na juventude”.

“Ela tem uma relação de referência absoluta com Milton Nascimento e diversos artistas da minha geração, seja no modo de cantora, de utilizar a voz, de usar o instrumento dela que é um híbrido de voz masculina e feminina, pois como pessoa ela faz um trânsito entre os gêneros. Ela simboliza essa variedade de modos de ser artísticos da contemporaneidade, ela é muito representativa, e isso tudo aparece na conversa”, opinou o astro.

HERANÇA E RESISTÊNCIA

Ao fim da entrevista coletiva, Gilberto Gil chegou a comentar sobre o fato de muitos jovens serem fãs de seu trabalho, mesmo não estando nem nascidos quando ele iniciou a carreira: “São os feitiços da história cultural. Um personagem como acaba em certa dimensão virando um fetiche, principalmente para essas pessoas jovens em que os pais apresentaram minha música e minha imagem e agora, por diversas razões, se identificam em alguns aspectos com a minha persona de Gilberto Gil”.

“Os jovens são trazidos por essas formas de sedimentação das imagens, dos sons, eles se aproximam com esse aspecto ‘fetichizante’ da personalidade cultural que eu represento ´[…] Os jovens representam uma passagem de bastão cultural, que é bem importante”, garantiu ele.

Por fim, Gilberto Gil respondeu se enxerga o programa “Amigo, Sons e Palavras” como uma forma de resistência da arte: “De uma determinada maneira, essa insistência em fazer essas conversas, garantir espaço para que as pessoas manifestem seus diversos papéis, falas revelando dificuldades surgidas nos últimos anos, ainda mais em um momento na qual o governo anterior limitava essa manifestação cultura, tudo isso é importante e pode ser sim visto como resistência, uma maneira livre de manifestarmos nosso modo artístico de estar no mundo, sem dúvida alguma”.

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Raphael Araujo Barboza é formado em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. OFuxico foi o primeiro lugar em que começou a trabalhar. Diariamente faz um pouco de tudo, mas tem como assuntos favoritos Super-Heróis e demais assuntos da Cultura Pop (séries, filmes, músicas) e tudo que envolva a Comunidade LGBTQIA+.


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