Vai na Fé: Especialista analisa ações abusivas de Theo

Por - 17/06/23 às 13:30

kate, theo e clara em vai na féReprodução/Instagram

Theo (Emílio Dantas), o principal vilão de “Vai na Fé“, TV Globo, é muitas coisas, mas o que o destaca como maior a maior ameaça da novela é sua personalidade abusiva. Dono de um teor manipulador inigualável, o advogado coleciona relacionamentos abusivos ao longo da trama e parece conseguir se livrar de todas as consequências por trazer o mal para aqueles que alega amar.

E de acordo com os spoilers da novela, após Clara (Regiane Alves) Lumiar (Carolina Dieckmann) será a próxima vítima do abusador, já que entrará em um compromisso sério com Theo, apenas para perceber aos poucos que está vivendo uma relação tóxica.

OFuxico conversou com a psicóloga Luanna Debs, especialista em relacionamentos abusivos, para compreender melhor o funcionamento da mente de um homem abusador, e as maneiras que ele usa o psicológico da mulher ou de um homem para que eles não percebam que estejam em uma situação de risco.

Ela ressaltou a importância de perceber os ciclos e violênica: “Pra um relacionamento ser abusivo é preciso também identificar o ciclo da violência acontecendo, porque existe uma diferença entre ter um comportamento abusivo e ser abusivo, e muitas pessoas confundem isso, a forma de operar de um homem abusivo é essa dentro do ciclo da violência, ele vai funcionar então nesse lugar de seduzir, de ser romântico, de ter a lua de mel, depois entrar numa tensão, depois explodir, e aí voltar pra esse lugar da reconciliação e da lua de mel, e isso se repete em ciclos que vão ficando cada vez com um espaço menor entre uma fase e outra e escalonando a violência”.

DIFERENTES TIPOS DE ABUSO

E diferenciou os tipos de abuso: “Existem várias formas de abusar, mas é importante lembrar que em todo relacionamento abusivo um tipo de abusivo vai estar sempre presente, que é o psicológico, ele é que dá a base e mantém o funcionamento do relacionamento. Mas existem os abusos físicos, como bater, empurrar, puxar cabelo, dirigir perigosamente, todos essas são abusivos físicos que colocam em risco a integridade física da vítima. Abuso financeiros, controlar o dinheiro da vítima, esconder quanto ganha, sobrecarregá-la financeiramente. Abuso intelectual, onde o abusador aproveita dos conhecimentos da vítima, acontece muito quando eles tem a mesma profissão, e aí ele fala que é dele aquilo que ela desenvolveu e criou, ou quando ele diminui a intelectualidade dela, rebate o que ela está dizendo quando é a profissão dela e ela sabe o que está falando. Abuso sexual, dentro dos relacionamento abusivos acontece com frequência mas as mulheres têm dificuldade de reconhecer porque acham que é normal o parceiro a toque quando ela não está com vontade, que force a penetração, muitas mulheres às vezes acordam na madrugada sendo tocadas, isso é abuso sexual. Existem várias formas, não só o abuso psicológico, mas todas as vezes que outros abusos estão acontecendo, o psicológico está presente”.

SINAIS

Como visto na novela, Clara percebe devagar que está em um casamento abusivo, mas mesmo assim não consegue se desvencilhar do marido. Luanna conta quais são as formas de perceber os sinais do abuso:

“É importante entender que ler a nós mesmas é mais fácil e mais seguro do que tentar ler o abusador. Porque os abusadores mudam o comportamento e a forma de agir de acordo com a percepção da vítima, então quando você começa a perceber que não está a vontade, quando sente que está pisando em ovos dentro do relacionamento, que está sempre tensa, e que não se sente tranquila para poder escolher estar ou não, que o seu “não” não é respeitado, são sinais que você está num relacionamento abusivo”.

“Um outro sinal importante, é bem no início do relacionamento, mas mascarado de romantismo, que é a intensidade, a rapidez com que a relação acontece, essa investida que é entendida como uma marcação de território e um auto interesse do abusador, mas que na verdade é também uma falta de respeito em relação ao limite da vítima e da mulher, muitas vezes a mulher fala que não está a fim de sair, mas ele insiste muito, ele marca território na porta da casa dela, na porta do trabalho, e tudo isso é lido como interesse quando na verdade é uma forma de se manter presente e controlar, receber aquilo que deseja, que é a atenção da mulher para ele sugar ela para dentro do relacionamento”, complementou.

Theo é cheio de cartas na manga, e Luanna explica a lógica por trás da manipulação masculina: “As principais ferramentas que o abusador usa para poder manter a vítima e abusar dela, é exatamente o abuso psicológico, ele está do início até o fim do relacionamento, durante todo o tempo, não são fases, não são períodos, é o tempo todo, com o tempo dentro dessa dinâmica, a própria presença do abusador já é um recado, já é o próprio abusivo acontecendo, são as expressões faciais, os gestos, a forma de andar, tudo aquilo vira sinais dentro do relacionamento. Então a ferramenta que o abusador mais utilizada são os abusos psicológicos, gaslighting, ameaças em geral, manipulação, formas de diminuir a autoestima da vítima, de deixar ela insegura, então daí consegue fazer outros abusos e explorar a vítima”.

Porém, a pergunta que fica é: como o abusador faz para que a vítima não perceba que está sendo abusada?: “Como existem fases, o relacionamento abusivo vive em torno desse ciclo que eu citei, é uma relação que existe o ‘bate e assopra’, o abusador não é o tempo todo claramente abusivo, alguns abusos ficam escondidos de romantismo e sutileza, principalmente na fase da reconciliação e da lua de mel, onde as manipulações acontecem por via do vitimismo, por via do romance, das declarações de amor, de presentes, de promessas de um futuro diferente, a depender daquilo que é importante para a vítima, então a pessoa às vezes tem o lampejo de consciência, ela entende o que acontece, fatos violentes que ocorrem, mas ela não consegue perceber que é uma relação abusiva porque existe a dinâmica de ‘bate e assopra’, faz com que ela se sinta confusa, porque tem hora que ele dá carinho e afeto para ela, tem hora que ele negocia, tem hora que ele pede desculpa, tem hora que ele se mostra arrependido, mas tudo isso é com a intenção de manipular e de trazer ela para perto, para ela realmente não perceber”, responde Luanna.

COMO AJUDAR?

Helena (Priscila Sztejnman) foi a principal responsável por alertar Clara sobre sua situação de vítima, e Luanna explica a melhor forma de dar apoio à alguém na mesma posição:

“É importante a gente entender que para alertar e ajudar uma vítima, a gente precisa ter a consciência de que não podemos agir como uma pessoa controladora, no sentido de querer forçar essa pessoa a sair da relação, a enxergar a qualquer custo, então a gente ajuda primeiro estando disponível para essa pessoa independente da decisão dela de sair ou não do relacionamento. A gente ajuda também quando a gente faz com que a nossa companhia e as coisas que oferecemos para essa pessoa seja tão boa que ela possa chegar o ponto de comparar quando ela está nesse ambiente de apoio ela está muito melhor do que quando ela está com esse homem e para alertar podemos falar da nossa preocupação, que estamos sentindo que essa mulher está diferente, que ela mudou o comportamento, que ela está mais fechado, que ela está com mais medo e que isso tem sido uma preocupação para você”, detalha.

“E também oferecer conteúdos que possam ajudar a esclarecer isso, mas com muito cuidado e respeito para que não pareça que você está julgando, porque a mulheres que estão em relações abusivas se sentem muito envergonhadas e culpadas, a tendência quando ela se sentem que estão sendo julgadas é de recolherem ainda mais, então ajudar é um processo que deve ser feito com delicadeza e com o olhar atento às necessidades dela, e não às nossas crenças, valores e desejos de que ela saia para ontem, que ela tenha tal atitude, e às vezes ser uma boa rede de apoio é estar presente nos momentos de necessidade independente dela sair ou não”, conta.

EXISTE MOTIVO PARA O ABUSO?

Luanna ainda deixou claro que não existe um dignóstico que justifique o fato dos homens abusarem: “Muitas pessoas dizem que homens são abusivos por questão de trauma, por questões de insegurança, ou porque tem algum transtorno de personalidade, usam o termo ‘narcisista’ para explicar, mas a verdade é que não existe nenhum diagnóstico, ou nenhum possível estado psicológico que explique tanto homens sendo abusivos, o motivo pelo qual se encontra em comum os homens serem assim, está totalmente relacionado com a nossa cultura, os homens são abusivos porque eles enxergam as mulheres como objetos, que estão ali para servir a eles, para que eles possam alcançar os privilégios que eles gostariam de ter. A questão do abusivo está ligada intimamente ao machismo, a forma de enxergar uma mulher não como uma pessoa e ser humano que tem vontade própria, desejos, necessidades, mas sim como um objeto que está ali para atender os desejos desse homem.

“Os privilégios em ter uma mulher são muitos, porque nós somos educadas para atender as necessidades dos homens, somos muito educadas para relacionamentos, para servir e para cuidar, são privilégios sexuais, muitas mulheres não conseguem dizer não, e até quando dizem não elas são estupradas dentro do relacionamento abusivo. Há os privilégios domésticos, então a mulher cuida da casa, ela está arrumada, a comida está pronta, a roupa está limpa, e assim ele tem estrutura para poder ir pro mundo, para se desenvolver profissionalmente e ganhar dinheiro, porque ela está nesse lugar, há privilégios sociais, financeiros, a grande questão está relacionada em manter os privilégios”, finaliza.

WALCYR CARRASCO

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